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Mostrando postagens de abril, 2020

Fala aí, Jabá

Eu, a Clau e os meninos íamos sempre na pastelaria aqui do bairro. É um programa baratinho, dá para ir a pé e a molecada sempre se diverte. Às sextas, quando a molecada pousava na casa dos meus pais, a gente aproveitava para namorar um pouco, comendo pastel e tomando cerveja. Numa dessas sextas, eu escuto uma voz de uns vinte anos atrás me chamando. Demorei para reconhecer, porque 20 anos é tempo pra o irmão pentelho do seu amigo de escola virar um cara que você encontra num boteco da esquina. Era o Michel, irmão do Franklin e do Leo. Amigos da época em que eu estudei no Instituto São Pio X, lá em Quitaúna. Legal demais ver o cara ali, porque eu me lembro dos irmãos com quem tomei minhas primeiras cervejas roubadas do Seu Medeiros. A gente dá muita risada, no pouco tempo de conversa. Saudades dos caras e sempre essa pergunta que vem, porque é que a gente deixa de ver alguns amigos depois de um tempo? A gente se divertia, tomava cervejas, dava muita risada. Não brigamos nem n...

Boca de urna

Um mês de quarentena. Eu tenho passado um bocado de tempo rolando as timelines, apenas para constatar que elas estão cada vez mais vazias de conteúdo. Mais do mesmo. Mas de um jeito como nunca havia estado antes. Minha sensação é a mesma das eleições. De quando eu caminho para a escola onde voto e vejo o caminho cheio de santinhos. Sim, eu tenho meus amigos fazendo suas lives e aulas pela internet. Eles estão bem com isso. Mas eu não vejo nunca. Não consigo. Não vejo, porque nunca vi. Eu tenho dificuldade com isso da TV. Porque pra mim as lives são pequenas TVs, com infinitos canais, e eu nunca gostei disso. Dorian Gray.

Semanário

Impossível manter ritmo nisso aqui. Essa semana eu tive um daqueles sonhos que trazem uma verdade inaceitável sobre nós mesmos. E me dei conta dessa arrogância. Eu nunca estive satisfeito com nenhum trabalho que eu fiz. Sempre me pareceu que se as condições fossem melhores, eu poderia ter feito algo melhor. Algo que estivesse à altura do que eu posso fazer. É isso. E eu sempre achei que fosse timidez. Que fosse vergonha de aparecer, ou algo assim. Mas não. Era exatamente isso aí que eu escrevi acima.  E percebi quantas vezes eu fui desrespeitoso com a gente que já trabalhou comigo por isso. Fui desrespeitoso porque coloquei nosso trabalho num lugar precário que ele nunca esteve. A lista é longa aqui. Já fiz isso tantas vezes que perdi a conta. E nunca foi nada sobre as outras pessoas. Foi algo sobre eu mesmo. Sempre foi. Mas com certeza eu fiz merda com os outros. Esse lugar da quarentena é também o purgatório. Todos nós estamos à beira da morte. Todos nó...

Seja útil

Minha primeira preocupação na quarentena foi justamente a financeira. A economia do Brasil já estava uma merda antes disso. Mas ao menos eu tinha trabalho agendado e certo. Então, mudou a secretaria de cultura. E depois veio a quarentena. E as coisas se atrasaram. A falta da grana para sustentar minha família me deixou em alerta nas duas primeiras semanas, até que graças a Deus a produtora nos propôs um acordo que me deixou mais tranquilo. O maior acerto da minha vida são essas parcerias com gente decente. Mas uma vez que o ruído da falta de grana se dissipou, percebi que não era o único problema. A rotina doméstica absorve todo mundo. Sempre há louça para lavar e a casa nunca está limpa o suficiente. Com três filhos, é de se esperar que tudo esteja sempre zoneado, e que você acabe pisando em Legos umas cem vezes ao dia. Primeira medida na quarentena foi a de distribuir tarefas e coordenar esforços. Todo mundo tem sempre alguma coisa da casa para resolver. Tirar os lixos, passar...