Seja útil
Minha primeira preocupação na quarentena foi justamente a financeira. A economia do Brasil já estava uma merda antes disso. Mas ao menos eu tinha trabalho agendado e certo. Então, mudou a secretaria de cultura. E depois veio a quarentena. E as coisas se atrasaram.
A falta da grana para sustentar minha família me deixou em alerta nas duas primeiras semanas, até que graças a Deus a produtora nos propôs um acordo que me deixou mais tranquilo. O maior acerto da minha vida são essas parcerias com gente decente.
Mas uma vez que o ruído da falta de grana se dissipou, percebi que não era o único problema.
A rotina doméstica absorve todo mundo. Sempre há louça para lavar e a casa nunca está limpa o suficiente. Com três filhos, é de se esperar que tudo esteja sempre zoneado, e que você acabe pisando em Legos umas cem vezes ao dia.
Primeira medida na quarentena foi a de distribuir tarefas e coordenar esforços. Todo mundo tem sempre alguma coisa da casa para resolver. Tirar os lixos, passar um pano, passar aspirador, lavar um banheiro, fazer a comida, lavar as louças, lavar a roupa, cuidar das plantas, lavar o carro e o mais assustador de todos: ir ao supermercado.
Ir ao supermercado é enfrentar o apocalipse zumbi.
Aqui no bairro as pessoas usam máscaras. O mercado colocou uns adesivos no chão e uns plásticos em frente ao caixa. Mas os corredores continuam abarrotados com o estoque espalhado. São corredores estreitos e é impossível manter a distância segura. A Clau decidiu ir a um outro supermercado, maior, na Raposo. E constatou o salve-se quem puder fora da nossa bolha. Daqui até Cotia existe uma infinidade de bairros cada vez mais pobres. O supermercado fica nesse caminho. Lá tem corredores mais largos, sim. Mas nenhuma segurança para seus funcionários. A clientela é gente humilde, que mora em outros bairros. E alguns ainda acham que as máscaras e o protocolo são frescuras de "Vila-Madaleiners". O Brasil vai se ressentir dessa merda que foi eleita presidente...
Desde a outra sexta (eu estou perdendo a conta dos dias da semana) eu retomei minhas ações na escola das crianças, apoiando os professores com a virtualização das aulas. Fiz primeiro por ser pai da sala e a professora estar precisando de apoio. Mas logo fui me ocupando mais e entendendo as ferramentas. Porque preciso ser útil. Preciso fazer alguma coisa para ajudar as pessoas que estão à minha volta. Mesmo que não tenha grana, necessariamente.
Essas pequenas coisas que a gente vai fazendo pelos outros nessa circunstância vão nos dando a possibilidade de agir. A circunstância toda limita nossas ações. E o pior, é que estamos torcendo para que o governo limite a ação de todos os cidadãos, para que a doença não se espalhe.
Mas, governo controlando cidadão é uma doença tão complicada quando o Corona.
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