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Fala aí, Jabá

Eu, a Clau e os meninos íamos sempre na pastelaria aqui do bairro. É um programa baratinho, dá para ir a pé e a molecada sempre se diverte. Às sextas, quando a molecada pousava na casa dos meus pais, a gente aproveitava para namorar um pouco, comendo pastel e tomando cerveja. Numa dessas sextas, eu escuto uma voz de uns vinte anos atrás me chamando. Demorei para reconhecer, porque 20 anos é tempo pra o irmão pentelho do seu amigo de escola virar um cara que você encontra num boteco da esquina. Era o Michel, irmão do Franklin e do Leo. Amigos da época em que eu estudei no Instituto São Pio X, lá em Quitaúna. Legal demais ver o cara ali, porque eu me lembro dos irmãos com quem tomei minhas primeiras cervejas roubadas do Seu Medeiros. A gente dá muita risada, no pouco tempo de conversa. Saudades dos caras e sempre essa pergunta que vem, porque é que a gente deixa de ver alguns amigos depois de um tempo? A gente se divertia, tomava cervejas, dava muita risada. Não brigamos nem n...

Boca de urna

Um mês de quarentena. Eu tenho passado um bocado de tempo rolando as timelines, apenas para constatar que elas estão cada vez mais vazias de conteúdo. Mais do mesmo. Mas de um jeito como nunca havia estado antes. Minha sensação é a mesma das eleições. De quando eu caminho para a escola onde voto e vejo o caminho cheio de santinhos. Sim, eu tenho meus amigos fazendo suas lives e aulas pela internet. Eles estão bem com isso. Mas eu não vejo nunca. Não consigo. Não vejo, porque nunca vi. Eu tenho dificuldade com isso da TV. Porque pra mim as lives são pequenas TVs, com infinitos canais, e eu nunca gostei disso. Dorian Gray.

Semanário

Impossível manter ritmo nisso aqui. Essa semana eu tive um daqueles sonhos que trazem uma verdade inaceitável sobre nós mesmos. E me dei conta dessa arrogância. Eu nunca estive satisfeito com nenhum trabalho que eu fiz. Sempre me pareceu que se as condições fossem melhores, eu poderia ter feito algo melhor. Algo que estivesse à altura do que eu posso fazer. É isso. E eu sempre achei que fosse timidez. Que fosse vergonha de aparecer, ou algo assim. Mas não. Era exatamente isso aí que eu escrevi acima.  E percebi quantas vezes eu fui desrespeitoso com a gente que já trabalhou comigo por isso. Fui desrespeitoso porque coloquei nosso trabalho num lugar precário que ele nunca esteve. A lista é longa aqui. Já fiz isso tantas vezes que perdi a conta. E nunca foi nada sobre as outras pessoas. Foi algo sobre eu mesmo. Sempre foi. Mas com certeza eu fiz merda com os outros. Esse lugar da quarentena é também o purgatório. Todos nós estamos à beira da morte. Todos nó...

Seja útil

Minha primeira preocupação na quarentena foi justamente a financeira. A economia do Brasil já estava uma merda antes disso. Mas ao menos eu tinha trabalho agendado e certo. Então, mudou a secretaria de cultura. E depois veio a quarentena. E as coisas se atrasaram. A falta da grana para sustentar minha família me deixou em alerta nas duas primeiras semanas, até que graças a Deus a produtora nos propôs um acordo que me deixou mais tranquilo. O maior acerto da minha vida são essas parcerias com gente decente. Mas uma vez que o ruído da falta de grana se dissipou, percebi que não era o único problema. A rotina doméstica absorve todo mundo. Sempre há louça para lavar e a casa nunca está limpa o suficiente. Com três filhos, é de se esperar que tudo esteja sempre zoneado, e que você acabe pisando em Legos umas cem vezes ao dia. Primeira medida na quarentena foi a de distribuir tarefas e coordenar esforços. Todo mundo tem sempre alguma coisa da casa para resolver. Tirar os lixos, passar...

Negando

Eu acho que eu passei essas duas semanas em negação. Não estava aceitando a mudança das coisas. Estava ainda agarrado às muletas da minha vida e não estava entendendo como seguir. Eu me dediquei a cuidar dos meus, porque é impossível pra mim não fazê-lo. Mas sobre o mundo, sobre minha função nisso, não sabia como seguir. O dia de ontem foi cheio de altos e baixos. Mas o comunicado de uma amiga sobre receber um adiantamento por um trabalho que ainda faremos me tranquilizou mais do que financeiramente. Foi bom saber que estou emparelhado com gente assim. Então eu pude voltar a pensar no que fazer para a comunidade maior em que me insiro. Gravar a leitura da Sra. Taurino me trouxe a alegria, que é meu combustível. O riso do outro me anima a continuar vivo. E eu não posso me esquecer disso. Hoje eu já gravei alguns audios para meus amigos do Conselho de Pais da Guayi. Ouvi como estão lidando com isso tudo. Gravei audios para outros amigos. Ouvi suas mensagens. Meu compadre sugeriu de ...

Sra. Taurino

A minha irmã Denise me pediu para fazer uma live hoje, pelo Instagram. Passei umas duas horas tentando fazer a abençoada junto com a Dani, que trabalha com a Dê lá na Taba. Não deu certo. Então eu fui lá pro teto da nossa casa e me sentei nas abençoadas cadeiras de praia que eu comprei no fim do ano passado e fiz a leitura pra o site dela. Que delícia! Eu me divirto fazendo essas coisas. Acho que vou fazer mais. Vou ler outros livros, talvez. https://www.youtube.com/watch?v=mDecUdHaRcA Mas hoje eu me preocupei mais com a quarentena. Acabei de avisar aos meninos que a partir de amanhã, não sairemos mais para a nossa caminhadinha matutina. Vamos ficar aqui dentro de casa. Usando nossa casa um pouco mais. Indo para o teto verde, e olhando o mundo ali de cima. Vamos usar mais essa parte da casa, que usamos tão pouco. Amanhã eu tenho grama pra cortar e um jardim para pensar, talvez. Talvez. Meus pais foram passar uma semana na Paraíba e agora não conseguem voltar. A quarentena os...

Formação de quadrilha

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No nosso ritmo diário, eu incluí algumas caminhadas pelo bairro com os meninos. As crianças estudam numa Waldorf, que fica num sítio, lá em Embu das Artes (Escola Waldorf Guayi). É muita natureza, muito espaço e a comunidade, que é maravilhosa. Como eu vou manter os caras em casa o dia todo? Nós ficamos longe das pessoas. Observamos a segurança toda. Bom dia, boa tarde. Sempre à distância. No caminho coletamos flores bonitas, para mostrar para a mãe que fica em casa. Cada um com uma tarefa. Chico desenha as flores. Gabriel faz um mapa do caminho, que todo dia muda e eu nunca conto qual vai ser a rota (primeiro porque eu adoro andar assim, sem saber direito onde estou indo e segundo, para manter a surpresa e controlar a ansiedade). Pedro escreve o que observou. Mas agora já começamos a ser olhados como malucos. Agora já tem muita gente com as máscaras. Pouca gente na rua. Eu passo com minha quadrilha e aquela senhora procura um lenço pra colocar na cara. Ela aperta o passo na no...